Li o teu perfil.
Era curto, irônico, e eu sou um curioso da porra.
Não deu nem dez segundos e vi você online.
Arrisquei, te chamei prum papo, o pior que podia acontecer era você recusar.
Mas não, você topou.
Fiz o ar mais blasê que eu conhecia para que não visse meu coração na boca, queria pelo menos uns [...]
Posts under ‘literatices e escrivinhações’
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Forma
Dois anos de namoro.
Casaram.
“Quem casa quer casa”. Arrumaram uma, encheram com móveis de pai e mãe, avós e padrinhos.
Tudo “amorzinho, te adoro”, limpinho, lindinho, combinandinho, tirando uma mania ou outra, das que pedem tesoura. Dele, a de começar o dia com um sanduíche de queijo prato, frio, no pão-de-forma.
Invariavelmente.
Nada demais, não fosse o jeito de [...]
Sem título (início da 4a. parte)
[Para quem não conhece, aqui vão os links para a parte 1, parte 2 e parte 3]
IV
Chega, Pedro, chega. Cansei. Não quero mais os teus silêncios, nem os meus. Fique com eles, fique com a sua autopiedade, trepe à vontade com ela, só não peça que eu assista. E ficar me olhando assim, com esse [...]
Remédio
Depressão, das brabas. E mandona, ainda por cima. Só queria saber de ouvir Elis, e cantando “Atrás da Porta”. Atendendo às exigências da megera, Mauro encontrou uma versão em vídeo. Pôs o som no dez, deitou a cabeça sobre a escrivaninha e esperou o cutelo daquela voz cortar-lhe o fiapo de vida.
[Pausa para ver o [...]
A queda, a fratura e o gesso [2]
Quinta-feira, 23 de outubro, por volta do meio-dia. Jair e Célia à mesa, onze meses depois. Dona Semírames na cozinha, passando um café.
— Célia, precisamos conversar.
— Que foi, Jair?
— Primeiro, quero te dizer que é sério. Muito. Segundo, que você vai ter que ser forte. Muito. Terceiro, que com os oito telefonemas que dei agora [...]
Gigante vermelha
Abriu os olhos devagar, recolhendo as pálpebras numa delicadeza só. Quase um gato angorá, só faltava ronronar. E o jeito de se espreguiçar? Pareceu coisa de método Stanislavski, ou exercício de terapia corporal, nunca fizera nada parecido. A vida toda pulara da cama, de supetão, na pressa de pagar uma dívida com o mundo, como [...]
Meditação
Na estante da livraria, só um exemplar. Sem um daqueles sensores ao toque das piscinas olímpicas ou mesmo um juiz de photo finish, impossível saber quem pegou o livro primeiro. Não fez diferença. Deu-lhe uma gravata de porteiro seguida de um koshi-guruma. Uma vez no chão, aplicou-lhe um juji-gatame até que pedisse arrego. Levantou-se, ajeitou [...]
Reclamação
Quando vi a sua filha, adorei o contraste. Juntar os meus panos de bunda com uma depressiva-reflexiva, cética até a medula e ainda por cima meio grossa, dessas que não levam desaforo pra casa, foi tudo o que as minhas manias sempre pediram a Deus. Mas a senhora me trapaceou. Validade só de um mês [...]
Perversão
Um pacto bem simples: a verdade, sempre, não importa qual.
Ligou para Lúcia, amiga de infância de sua mulher. Preciso conversar com você, pode ser às sete?, te apanho no trabalho. Nem esperou o primeiro chope. Atacou sem dó, bate-estaca, até ver suas defesas no chão, junto ao sutiã, meu Deus, o que foi que a [...]
Sinais
Lista de convidados escandalosamente intelectualizada, invejada e invejosa.
Black-tie impecável, que esperava usar mais vezes, torcendo para não engordar muito nos próximos anos.
Esposa elegante, despida de arrogância e botox, companheira até nos avessos da vida… e porque não agora, na riqueza, saboreando junto ao marido aquele galardão que os seus pares resolveram lhe outorgar? Tivesse ele [...]
Raílda
— Raílda?
O sorriso disse que era. E se poucos conhecem esse nome, ele não fazia parte do grupo. Aquela foi a sua primeira pronúncia, acento reforçado no i, no estacionamento do Pavilhão de São Cristóvão, ao lado do Adegão Português.
Chamavam-no Junior. Junior por conta do Neodímio, que detestava. Quem começou essa sina fora o seu [...]
Sem título (3a. parte)
[Para quem não leu ou não lembra mais, a primeira parte está aqui, e a segunda aqui]
III
Acontecimentos demais em tão pouco tempo, numa velocidade ainda maior do que a da taquicardia que volta e meia dava em mim. Taquicardia e pressa, envelopando o sujeito essencialmente urbano que sou, alimentado à base de leite, vitaminas, cerveja [...]
Sem título (2a. parte)
[Para quem não leu, a primeira parte está aqui]
II
Pedro, ligaram da clínica. O seu tio Carlos recebeu alta, o psiquiatra pediu que você fosse buscá-lo. Disse que quer dar orientações sobre os remédios a algum dos familiares. O bilhete da Zezé, a empregada da vida toda, estava no aparador ao lado da porta, impossível que [...]
Sem título (1a. parte)
I
Não foi nenhum estrondo, e nem esperava que fosse. Mas tão seco, dois crec e pronto, também não. Ficou no ar um oco sem graça, parado na contramão do que eu tinha que sentir numa hora dessas, sem nem desconfiar que viveria algo assim.
De qualquer forma, reconheço que o mérito da estranheza foi meu. Não [...]
Marulhos
Notou o choro ao cruzar por Ela, e mesmo sem atinar o porquê do nariz vermelho e daquelas bochechas ensopadas, ficou triste. Triste, de rumo descalibrado e um desgosto cada vez mais seu, salvo o fio que brotou do meio de sua coluna, que contorcionismo algum daria conta de alcançar, desnovelando-se até aquelas costas alvas, [...]



